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É moeda de troca, palavra por dizer, sorriso revelado, catalisador de amizade. Com sotaques e variantes, está viva nos quatro continentes, morando na casa de cerca de 200 milhões e meio de pessoas em todo o mundo. No ano em que o português celebra os seus oito séculos de vida, há uma pergunta que não se pode deixar de fazer:

Quanto vale a Língua Portuguesa ?

Uma Reportagem de:

Bernardo Limas
&
Rui Barros

Parece-nos tão intrínseca como respirar, sendo, ao mesmo tempo, parte única daquilo que somos. É hoje a quinta língua mais usada online. São 10,8 milhões de quilómetros quadrados de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Guiné Equatorial. Cerca de 8 % da superfície terrestre. Os seus Produtos Internos Brutos (PIB’s), somados, correspondiam a dois triliões e meio de dólares no ano de 2013.

Denominador comum? A língua portuguesa.

Marcam-lhe o nascimento com o testamento de D.Afonso II e o crescimento com a partida das naus de Lisboa para se tornar pioneira na globalização. Ganhou ritmos de samba e morna, sotaques e variações, novos jeitos, novas palavras, novas esperanças. E coexiste hoje na lista do supermercado e debaixo da lombada d’Os Lusíadas, ganhando fôlego a cada remate do Ronaldo, a cada goleada da canarinha, em cada vírgula de Saramago, a cada disco do Anselmo Ralph.

Durante oito séculos foi língua de escravos e especiarias, de colonialismo, de guerras e independências. É hoje vantagem competitiva e potenciadora de negócios. E embora a dimensão económica de uma língua não seja fácil de calcular, podemos ter em conta alguns números.

Só em 2013, trocaram-se 14 770 milhões de dólares entre todos os países que constituem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Com Angola, Portugal e Brasil responsáveis por cerca de 80% deste valor, nunca se trocou tanto dinheiro dentro da comunidade, desde a sua fundação como tal, em 1996. A perspetiva, essa é de crescimento. Desde 2001, e à exceção do ano de 2008 e da crise económica que assolou a economia mundial, o valor das trocas comerciais dentro da lusofonia cresceu constantemente.

“Um sinal de que o efeito sinergia da CPLP está a funcionar”, defende Miguel Levy, assessor político desta organização. Fundada com o objetivo de promover e difundir a língua portuguesa, a verdade é que são muitos os que questionam se hoje o organismo que congrega os países lusófonos não abandonou esses propósitos para se tornar num bloco económico e político. Para Miguel Levy, “uma coisa não implica a outra”.


A mais recente polémica a envolver a organização é mais um sinal dessa transformação.

Em 2011, o governo da Guiné Equatorial promulgou um decreto-lei em que oficializa a língua portuguesa como língua oficial do país, a par do francês e do castelhano. Em junho de 2014 este país tornou-se membro de pleno direito da CPLP, apesar da percentagem de falantes de português ser baixa no seio da sua população. Curiosamente, e mesmo sabendo que somente Portugal e Brasil disponibilizam os dados sobre as trocas comerciais com este país, as relações económicas com os equato-guineenses têm crescido em valor e importância dentro do espaço CPLP.

E apesar de Miguel Levy não acreditar que “na altura da fundação da CPLP se pensasse no valor económico da língua”, e de esta “não ter um pilar comercial”, não tem dúvidas de que a organização pode ser um importante ponto de encontro para que os estados membros combinem esforços, assinem tratados e façam confluir interesses em comum.

Talvez tenha sido exatamente essa perceção que motivou o Conselho de Ministros da CPLP, reunido em Brasília a julho de 2002, a propor a fundação da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP).

Sinal de que os países membros sabem que esta língua portuguesa pode também significar novos negócios.

Tudo uma questão de perspetiva.

Mas em campeonato de PIB's, o topo do pódio está ainda longe de ser português. O lugar cimeiro pertence à língua inglesa e aos 54 países que a têm como língua oficial, seguido pelo mandarim da China e Singapura e pelo castelhano de nuestros hermanos.

Em perspetiva, dois triliões e meio de dólares da língua portuguesa ainda estão bem longe de alcançar os quase 25 triliões e meio da língua inglesa.

Dentro da língua portuguesa, as desigualdades tornam-se ainda mais evidentes. Com o Brasil responsável por 85% do PIB lusófono, ao qual se segue Portugal com cerca de 9% e Angola que passou dos 0.77% do PIB em 1996 para corresponder hoje a quase 6%, as assimetrias dos nove países lusófonos não poderiam ser maiores.

"Apesar de todos os esforços, ainda somos uma comunidade demasiado desigual", defende Carlos Gonçalves, a trabalhar na direção para a cooperação e desenvolvimento da CPLP. Conhecedor das realidades dos (hoje) nove países, está convicto de que as desigualdades económicas dentro da lusofonia podem ser superadas. E aponta o exemplo timorense:

"É um facto que Portugal, Brasil e agora Angola são os países que mais contribuem para a CPLP, mas às vezes há gestos de outros países muito mais importantes. Vejam só o caso de Timor-Leste, que com todas as dificuldades que ainda tem, é dos países que mais tem contribuído, com quase dez milhões de euros, para ajudar um país irmão como a Guiné-Bissau."

Não é só Economia. Não é só sotaque.

Não foi o potencial económico do mercado lusófono que a motivou, nem sequer as ações de promoção linguística da CPLP. Foi o futebol da seleção brasileira. Saeko Yamasawa, japonesa de 24 anos, recorda bem o dia em que decidiu aprender português, durante o Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA de 2002, em que o seu país e a vizinha Coreia do Sul foram anfitriões.

Licenciou-se em português na Universidade de Tóquio para Estudos Estrangeiros e rumou a Portugal para procurar aprender a língua no seu ponto de origem. Encontrou novos modos de falar, mas também uma nova cultura.

Hoje a trabalhar no departamento de negócios internacionais de uma empresa que importa, entre outros produtos, conservas e vinhos do mercado lusófono, sabe que o facto de falar português constitui uma vantagem. Mesmo que o inglês seja, por excelência, a língua da globalização.

Saeko é uma das 160 mil pessoas que, segundo dados de 2012 do Instituto Camões, estão a aprender português fora dos países lusófonos. Os motivos, mesmo que variados, prendem-se muitas vezes com questões económicas e com o potencial mercado que países em franco desenvolvimento económico como Angola e Brasil se encontram neste momento.

Se a estes novos lusófonos somarmos ainda o forte crescimento demográfico dos países emergentes da comunidade, mas também o reconhecimento internacional de personagens mediáticas como Cristiano Ronaldo, Neymar, Isabel dos Santos ou Dilma Roussef, estamos certos que a língua portuguesa tem o seu futuro garantido.

Afinal de contas, não é só economia e não são só sotaques que fazem a lusofonia. É isso, mas também é samba, morna e fado, poesia, futebol e mar. Não são só negócios e parcerias, mas é também debate, discussão e globalização. É uma forma de ser e de estar.

Quanto vale a língua portuguesa?

Na incerteza da resposta, todos respondemos com um sorriso, convictos que esta coisa que temos como tão nossa valerá sempre bem mais do que um punhado de moedas.