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“Temos muito mais em comum do que somente a língua”

É jornalista, escritor, professor universitário e político brasileiro. Para o projeto de pós-doutoramento, em 2007, rumou à cidade do Porto, em Portugal, para estudar os primeiros jornais publicados nas colónias portuguesas.

Numa conversa via skype, a cerca de nove mil quilómetros de distância, discutiu-se a lusofonia. O que, para Antônio Hohlfeldt, é exemplo vivo de que o projeto lusófono pode realmente concretizar-se.


Testamento da Língua: Como começou esta viagem pela imprensa lusófona?

Antônio Hohlfeldt: Queria estudar a história do jornalismo comparado de Portugal e Brasil. No entanto, o professor Salvato Trigo, reitor da universidade Fernando Pessoa, propôs-me uma coisa mais ampla. Disse-me: vai estudar jornais de todas as ex-colónias e vai procurar perceber os processos e as influencias (ou não) que Portugal e o Brasil tiveram sobre elas.

T.L: E então? A que conclusões chegou?

A.H: Percebi que havia relações muito mais ricas e muito mais orgânicas. Mais do que poderíamos imaginar. Descobri que havia uma troca de exemplares entre os jornais de Moçambique, Angola, Portugal e do Brasil. Havia um diálogo muito fértil.

T.L: É este o momento fundador da lusofonia?

A.H: Não tenho dúvidas quanto a isso. Com a circulação destes jornais houve também um transporte de palavras, da fonética, de modos de pensar. Isso acabou circulando nesses territórios. Acabou por criar uma identidade lusófona.

TL: Existe uma cultura ou múltiplas culturas lusófonas?

A.H: Penso que existem as duas coisas. Dentro deste espaço, há uma língua portuguesa e um conjunto de outras línguas. Então existe uma cultura que nós podemos dizer lusófona, porque é mais ou menos comum a todos nós, com todas as variantes que constituem a mesma realidade. Temos muito mais em comum do que somente a língua.

T.L: Como avalia o papel da CPLP para promover a lusofonia?

A.H: Eu tenho dúvidas quanto à sua eficiência. O único lugar onde acho que realmente houve significativas aproximações foi no seio académico. Os governos fizeram acordos de universidades através dos seus ministérios da educação e isso resultou. E funciona porque não dependem dos governos para funcionarem. São sobretudo as iniciativas que envolvem as pessoas que acabam propiciando que essa aproximação ocorra de facto.

T.L:Então para que serve a CPLP?

A.H: A CPLP é aquela linha de horizonte sem a qual ficamos perdidos e não sabemos onde estamos. Mas é uma linha de horizonte que nunca alcançamos porque quando se move, a linha se move junto. Primeiro porque os países que compõem a CPLP têm condições específicas e que muitas vezes não são as ideais. E depois cada país tem também relações e compromissos com outras nações, como é o caso de Portugal e a União Europeia. Eu diria que essa linha do horizonte evidencia que há proximidades.

T.L: Tem havido esforços políticos na construção desta proximidade entre os povos?

A.H: Depende muito dos interesses que surgem de lado a lado. Infelizmente nós vemos que muitas vezes essas aproximações se dão conforme as crises de uns e as oportunidades dos outros. Tem havido muito discurso e alguns esforços legais de colocar marcos. E isso é fundamental, não o estou a negar. Mas a lusofonia é vivida de facto pelas outras pessoas.

T.L: Pessoas que, no entanto, ainda sabem muito pouco sobre os restantes países da CPLP…

A.H: Aí o turismo pode ter uma papel muito significativo. Eu digo muito aos meus alunos: quando tiverem dúvidas em relação a alguma coisa, vão lá olhar. Não fiquem falando de longe. Ainda é caro? Sim. Mas se eu pensar que já não levo 40 dias para chegar de navio, mas levo 11 horas, penso que temos condições para um maior diálogo. Os meios de comunicação - e incluo aqui também os meios de transporte - vieram aumentar as ligações entre os nossos povos.

T.L: Como vê a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP?

A.H: A impressão que eu tenho é que foi uma decisão mais comercial do que propriamente cultural. Mas eu acho que quanto mais a gente somar… quem sabe, talvez seja positivo. Talvez possamos ajudar a Guiné Equatorial no sentido de maior democracia.

T.L: É só uma questão económico-política?

A.H: Por trás disso [decisões económico-políticas] a gente pega carona [boleia] para fazer as questões culturais e históricas. A própria UE não é propriamente uma questão cultural. É muito mais a questão comercial.

T.L: E onde fica a língua portuguesa no meio disto tudo?

A.H: Eu diria que a língua portuguesa foi um facilitador. Evidencia que existe uma unidade potencial mas que tem de ser concretizada. Mas temos que começar de algum lado. E o lado comercial é muito mais apetecível que o lado cultural.

T.L: O que torna a língua portuguesa única?

A.H: O português é uma língua mais doce. Você pode falar português sem pensar muito naquilo que vai dizer. Talvez seja por isso que a gente diz tanta besteira (risos). Em alemão, por exemplo, até para dizer uma besteira você tem que organizar a frase.

Acho que é esta doçura da língua que a torna tão especial.